domingo, 20 de dezembro de 2009


Rua XV - Curitiba

Lebowski e eu

Entramos no elevador Lebowski e eu. Fedíamos a maconha. Notamos que o espelho no qual costumávamos olhar nossos reflexos, o espelho havia sido retirado de uma das três paredes que constituíam o elevador. Depois que também as outras três paredes que constituíam o elevador tinham sido removidas. Achamos que a porta, a porta que dá acesso ao elevador, pensamos que a porta continuava ali, abrindo e fechando, porém logo vimos o quanto estávamos errados, não havia mais a porta. Então olhamos para cima, qual não foi a nossa surpresa, Lebowski e eu nos deparamos com um teto que não existia mais. Aquele era um roteiro de decepções, seguidas de decepções, disse-me Lebowski. Foi aí que juntos olhamos para o chão e já não havia chão. A coisa degringolara completamente. Foi necessário que Lebowski e eu flutuássemos. Mas flutuar assim de última hora?, reclamou Lebowski.

Luiz Felipe Leprevost

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Cropopoesia

por que é o mesmo o pudor de escrever e defecar?
(joão cabral de melo neto)

quem gosta de poesia “visceral”,
ou seja, porca, preguiçosa, lerda,
que vá ao fundo e seja literal,
pedindo ao poeta, em vez de poemas, merda.
(antonio cicero)

o ânus é sempre o terror e eu não aceito que alguém perca um pedaço de excremento sem dilacerar-se por estar perdendo também a alma.
(antonin artaud)

para glauco mattoso.

Quero escrever
um poema
a partir da incontinência
de escrever
o poema
(triunfante
como uma cagada),
da imundície
de escrever
o poema.

mais que ruim,
poema fétido:
minha camisa aberta,
a peixaria das axilas,
a alegria gratuita

e irresponsável
de escrever
meu nome
nas coisas,
inda que sujando,
com uma fuzilaria
de engulhos.
que, se jogado fora,
não faça falta no
curso geral do dia
nem, de desimportante,
pese em algum
sistema de erros.
mas sobrevenha
num esquema de porcarias,
misturado a meu mijo
e meus pentelhos.

que feda,
que some aos meus
olhos de esgoto
e flua,
mais que um tietê de bolso,
fluente como diarreia.
(o idioma

da merda, seu fedor,
é direto como um murro,
mais sincero e universal
que o olor das flores.)

que este poema
não aperte os olhos
de um míope,
ou levante os óculos
na testa do comentarista.
que, a contrapelo,
lhes entorte a pose,
a um só tempo
com náuseas
e dores de barriga.

que não seja uma canção,
de tão irregular,
nem, de tão pastoso,
geométrico.
sórdido, cínico, laxativo,
mas infinitamente sincero,
que seja

pegajoso como esterco novo,

sob o assédio do sol

e dos vermes.
quero escrever
um poema
a partir da necessidade
fisiológica
de escrever
o poema.
ele será péssimo, mas
terá serventia,
mesmo infensa:
poema pelo prazer
de jogá-lo fora
(e emporcalhar a cidade)
em limpa consciência.

ou a poesia que há
em não dar descarga,
em não lavar as mãos,

digno do imundo

banheiro público.
poema infecto,
câncer de língua,
lixo literário,
febre do amoníaco,
vala aberta na página,
que vou querer
(menos que não quero) suprimir
do livro,
da memória,
da história
de meu corpo.
mas que, antes,
será motivo de vanglória,
quando o mostrar
ao amigo
como quem exibe no vaso
o design inusitado
da própria bosta.

(quem lhe negará ser
húmus possível
da boa poesia,
perfumosa como o milho?

a stink of beauty

is a joy forever.)

poema abjeto,

que cause urticária
nos querubins,
ânsias de vômito
nas musas,
inesquecível de ruim,
pior

que um gole

de água sanitária.

o menos que se diga,
em flatos barulhentos
(como quem afina

um trompete),
é que é ruim, ruim
de dar nojo, de dar gosto,
entre babas de diarremia,
à liquidez da anemia,
escrito na língua
da impureza,
pra que ninguém
o entenda
senão como um nauseante

e pedestre
acerto.

ou vaso a céu aberto,

coprolatria,
muito além de poema:
a latrina feita templo,
guirlandada com
papel higiênico,
sob anjos feios como urubus.
deus (como todo deus, de dentro)
será um fedor insistente,
será filho de meu cu.

e quando eu excretar
esta obra-crime
(agora mesmo),
aureolado de moscas,
me vaie como quem
me eleva,
que eu sairei andando
com a naturalidade
de quem caga e anda,
de quem assina com a tinta

de sua própria merda.



Rodrigo Madeira

terça-feira, 15 de dezembro de 2009


dialétrica


em tese
apesar das antíteses
há uma vaga hipótese, amor
de sermos síntese.
sente?


MERCEDES LORENZO

Evolucionismo [Evolu(vel)ção]


Sou um animal
extremamente irracional
e eficiente.

Instinto, efeito hormonal,
que seja:

escolhi macho saudável, novo, belo
com gens à flor da pele

e produzi a prole forte
pra perpetuar a espécie.

Carma, Darwin, Deus,
whatever!,
devem estar contentes.

Sou animal que morde e cospe
a compreensão das linhas tortas.

Isso já não me importa tanto
( foi uma uma boa troca).

Enquanto me livrar
das frases fáceis,
da morte chata
e da vida certa,

ainda tenho sorte.


Flá Perez

Alma Siamesa


Esplendor das minhas aspirações siderais,
Totaliza-me nas jornadas que se expandem no Tempo.

Nos confins da eterna noite onde chove luzes de ouro
Sublime encanto paira em holográfica projeção de nosso sonho.

Estrelas congênitas, procedentes de uma revolução coexistente,
Selamos um lídimo elo perante centros gravitacionais que se cruzam.

A sua linda voz andrógina quando soa indireta
Faz-me transladar em déjàvu ao imo de uma curiosa emoção.

Sendo misteriosa flor de fogo em paisagem onírica
Vivemos além dos anjos, cintilante parte do que somos.

Amamos os meteoros, os lagos da Lua, o desconhecido...
Temos afeição pelo etéreo, transcendemos a ordem dos pólos.

Alternando as forças entre fluídicas criações
Elevamos valores do Universo no Planetário da Aliança.

Unificados com o magnetismo dos buracos negros
À sombra da macro-amplidão consagramos nossa integra consciência.

Conduz-me a fabulosos níveis de vibrações
Eternizados entre a cósmica alegria e a incondição.

Perfeita como o inexplicável fascínio de amar você
Energia espiritual que me acompanha num abraço para eu viver.


GIULIANO FRATIN

Aceitação da Loucura

Não vou à igreja
pedir perdão
por ser desigual

- prefiro a ciência
e a hóstia rosa
da Roche -

Nessa demência cetim - lexotan,
cai bem a nudez e a vodka
manchando o lençol on the rocks.

 
Ai, esqueci por sua causa
o que ia dizer!

- acho que tinha a ver
com sua não aceitação
da minha cuca torta,
sacaneada -

Fique com seus acertos,
suas mortas, filhas-das-patas
chocas
e me deixe

- choque! -

Posso até ser errada,
mas o problema é seu
e dê graças a Deus,

se não entende nada. 


Flá Perez

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009


de esquina

1. o travesti

meu amor, ouça!
a vida é um pai
de cinco metros
que tentou me

banir de mim,
que me deu banho
de arruda e socos
e esconjurou.

tem que ser macho
pra abrir o armário
em busca de

seus sutiãs.
tem que ser fêmea
pra entrar nos carros

2. o traficante

cada semana
um tênis novo,
novo relógio,
novo boné.

não fala, mas
vive cercado
por seus apóstolos,
um nimbo de

fumaça suja
sobre a cabeça.
quando morrer

(sempre amanhã)
reviverá
inda mais jovem.

Rodrigo Madeira

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Nada novo, de novo

"Os belos serão os bélicos!
Elmos no lugar de cérebros!"
Homem de Ferro; Sergio Viralobos e Marcos Prado

É tensa a ordem da primeira
fila no front abarrotado
de almas esfaceladas
ao primeiro toque
da trombeta

Ausência de sono,
ausência de fome;
cão que ladra morre

A qualquer momento,
o soar do segundo toque.

É erro a insistência
da coragem
desprovida de medo.
Averiguar
a equipagem
sabendo que ela
nada garante.

Segundo toque! Avante!

Ricardo Pozzo

terça-feira, 8 de dezembro de 2009


Rua Xv

uma concha

parto um osso
de pomba

e ao levá-lo ao ouvido
posso ouvir
o alarido

da praça

Rodrigo Madeira

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Existe beleza em todos os lugares na terra, mas existe uma beleza maior naqueles lugares onde se tem aquela sensação de bem-estar que surge quando não se tem mais que adiar os sonhos até o improvável futuro-um futuro que se esquiva inexoravelmente; onde o modo que se permeia uma vida subitamente se esvai, porque não há nada o que temer.

Jozef Skvorecky
(O engenheiro de almas)

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009


 Boca do Brilho - Curitiba

Caleidoscópio

Caleidoscópio
Saborear sonhos antigos
que já nem sei se os sinto.
Preciosos caquinhos perdidos
junto à embriaguez de ópio
Qualquer coisa assim sumindo
num fugaz caleidoscópio.
Mágico objeto
de espelhos de uma vida inteira,
Refletido eco
De desejos sem fronteiras.


Deisi Perin

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

...


segunda-feira, 30 de novembro de 2009


Poetas?


Sim,

Há aqueles que brigam com tudo,
e se pretendem Quixotes,
mas quando em palco cai o fundo
uma verdade se remove

e o que se vê é outra cena,
onde, fantoches de si mesmos,
pintam um quadro surreal –
em meio a tons pastéis - torresmos
outra comédia nos acena:
egos inflados em carnaval.

Somem as lanças de papel,
das armaduras ficam nus
e gesticulam querubins,
mascarados pelo céu

de suas solidões em vão.

Há um que berra e surta,
em exagero oligofrênico –
enquanto a “coréia” o aplaude
e vaia um pobre inculto
que percebe o fingimento.

Um outro se diz alquimista,
capaz de transformar em ouro
a merda, se lhe fizerem coro –
sua platéia goza uníssona.

E, assim, nas noites das décadas,
exibem-se os menestréis
nesta cidade em que as pétalas
são notas de rodapés.

Mais vale expor a intimidade
do que escrever algo que valha –
pois, se a poesia falha,
a biografia, quem sabe?

“Cada qual com seus problemas”,
loucura, magia ou fimose,
serve ao público que os devore,
fingindo comer poemas.

No entanto, lá, no canto
do boteco, o poeta
que finge sem ser cancro
de si mesmo, observa,

ao sofrimento da luz,
que fulgura em seus neurônios,
reinventa o que traduz
em seus goles de plutônio.

Em sua dignidade de Cervantes,
eu, um reles Sancho Pança,
observo-o a distância:
a anunciação do mito andante.


Yury Miyamura

domingo, 29 de novembro de 2009


Paço da Liberdade - Praça Generoso Marquez - Curitiba

Fantasmas marcam presença no vácuo da Sala Solta

Fantasmas
miasmas que miam nóias
marcam presença
no vácuo da Sala solta
da Biblioteca .

Dançam cabeças
sóis e sombras
nas letras da Big Band
Gers....in

Enquanto o pranto se alegra
atrás da poeira sorrateira
dos quadros
sonhos de senhas ocultas
tartamudas nuas sanhas
assanham tédios
guardas em greve.

Entrevados papéis sem leitores
sem pernas e sem asas
livros jogados na estante cinza
das desidéias.

O fantasma espetado espera...


Wilson Roberto Nogueira

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Informes Culturais Poeteias

MEDIEVAL:

Olá, os convido para mais uma apresentação de música medieval.

TABERNA FOLK - Cosmópolis, Sp
(Música Medieval)

Abertura com:

Vevila Veldicca - Curitiba, Pr
(Música Celta)

Dia 28/11/2009 - 19:00h - Centro Paranaense Feminino de Cultura R$10,00
(Rua Visconte de Rio Branco, n° 1717 - Centro - Curitiba/Paraná - Fone: 3232-8123)

Ingressos antecipados à venda para o dia 28: De Kroeg Bar (Av. Jaime Reis, 320 - São Franciso - Curitiba)

Em frente ao estacionamento do Ópera 1.

Também pelos fones: Henrique: 9914-5547 / Robson: 9608-8721 / Eduardo: 9671-1923

ou pelo e-mail: folkloricstorm@gmail.com

Ingressos no local APENAS na hora do evento.


Dia 29/11/2009 - 18:00h - Café Parangolé R$07,00

(Rua Benjamin Constant, 400) - Fone: 3092-1171(próximo a Reitoria da UFPR)


HAVERÃO
Camisetas e CDs a venda nas datas das apresentações
 
Lúcia Gönczy

sábado, 21 de novembro de 2009



Curitiba

Informes Poeteias

- aos amantes da poesia:


"Um novo projeto que visa colocar em evidência
a poética curitibana, incentivando a produção
literária e a narração da poesia"


O evento será quinzenal. Estarei lá com minhas poesias ao lado do poeta Edson Falcão, nesta primeira edição.

- Edson Falcão publicou dois livros de poesia:

- As musas do Canal Belém
- O Ossário de um Ferreiro.

Prepara seu terceiro livro para breve.

...

Café, Leite Quente e Poesia

O Sublime x O Pitoresco

Edson Falcão e Bárbara Lia

dia 21/11
16h

Café do Paço - Paço da Liberdade
Praça Generoso Marques, 189
Curitiba - PR -



Bárbara Lia

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

MIOPIA SOCIAL

Anoitece
e o último quadro pardo,
um homem comum
maquiado de escravo,
gravado...
na impressão de quem esquece.


Do singular que caminha,
do transeunte...
o que cambaleia nos rumos dos sapatos
e borda a rua
às vezes sem destino...


Ri dum cansado
como quem suspira.
Trágico ensaio,
como quem suporta
a morte eterna batendo à sua porta.


Altair de Oliveira
– In: Curtaversagem ou Vice-Versos.

cantos gregorianos

décima 1


poetemos o PT:
se quando ética existia,
sarney era uma rapina,
vigarices da mercê,
agora força esquecer.
lula na verdade é polvo,
sépia nos olhos do povo,
espreguiçando os tentáculos
por onde lautos repastos:
remessas, repasses, soldos.

décima 2

só se relaxando o esfíncter,
leva-se no magro cu
da boa-fé – norte a sul –
fala-falo/em-falso-em-riste.
alma e virtudes de pinscher,
ocultando ossos no armário,
cagando mole no erário:
à Postiça Social,
mau-caráter carnaval,
só com surra de caralhos.

décima 3

ou se com boa boquinha
de chupeteira na teta,
uniforme de estafeta
onde a Estrela Boazinha,
anjos co´asas de galinha;
só com sangue de chacal,
rigor de débil mental,
no refeitório das ONGs
prum miojo com mensonge,
pra concluir: “menos mal".


Rodrigo Madeira

quarta-feira, 18 de novembro de 2009


Você

Ainda me falam de você. As mesmas garotas que um dia treparam comigo. Elas não sabem o quanto você significou pra mim. Não sabem o que eu ainda sinto. Acham que vou aos bares pra flertar e me divertir. Uma porra. Eu vou pra fugir de mim. De Deus. E de todo mundo. De um mundo todo que me assusta. Assusta tanto quanto assustou àquele cara com cabelos loiros e casaco de lã. Aquele que deu um tiro dentro da boca. Dá medo. Essas garotas não sabem de nada. Nunca souberam de porra nenhuma. Quem sabia era você. Sabia tanto que me deixou assim. Desarmado. Desamado. Aimeudeus. Agora invento palavras e não me importo com nada. Por onde você anda? Ah, eu sei. Isso não é da minha conta. É que eu sempre me importei. Minto, fingindo que não ligo. Mas, penso em você todos os dias. Desde o primeiro. Não sei se será assim até o último. Isso ninguém sabe. O que sei é que todo homem tem uma mulher pra lembrar. Uma que ficará pra sempre ali, guardada. Sempre com uma tristeza que não cessa. Mesmo com filhos, esposa e família. Sempre tem uma mulher que fica na cabeça. Aquela que fodeu sua vida em algum momento. Todo homem tem uma mulher pra lembrar pro resto da vida. A merda é que eu acho que já tenho a minha.


Wilton Isquierdo

terça-feira, 17 de novembro de 2009


Efêmera

I.

Vênus veio.

Um oi,
um x,
um selo.

Depois foi...
O adeus de um deus do amor
nunca me foi tão terreno.


II.

Seus olhos exalavam tanta vida
que ao vê-los
achei que salvaria a minha
Seus lábios foram tão quentes
com tão pouco
que quis tê-los para sempre.


III.

Vênus taurina
por que chegaste na minha vida
se já estavas de saída?


Adriano Smaniotto

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Advérbio de intensidade terminado em mente


Devia ser umas onze horas. Ligou o chuveiro e tirou a roupa bem devagar para que a água tivesse tempo de esquentar. Entrou de uma só vez, viu a tinta preta dos seus cabelos escorrendo pelo corpo. O mundo é mesmo uma merda. Ela não queria tomar banho, só ficar ali. Sentou no chão e a água começou a bater absurdamente quente nos seus joelhos, deixando-os vermelhos. Masoquista. Como as músicas que ouvia para ficar mais triste. Como roer as unhas até sair sangue. Unhas. Gostava delas carmim como estavam porque parecia mais puta, logo mais despudorada e confiante e moderna e confiante e feliz. As putas deviam ser felizes. Desespero. Procurou algum resquício de ilusão. Gostava de se iludir, de sentir-se falsamente protegida por alguém que pouco se importava com a sua existência. Existência. Se tivesse uma banheira, cortaria os pulsos e morreria afogada na água vermelha, como naquele filme. Começou a rir sem controle, porque na película a menina suicidava-se ao som de alguma coisa da Mariah Carey. Ou seria Whitney Huston? Estúpido, not for her. Ela queria morrer com estilo. Edith Piaf, talvez. Então pensou nas manchetes dos jornais baratos: jovem desiludida corta os pulsos em uma banheira ouvindo Piaf. Precisava de um papel para escrever um bilhete para alguém. E não podia ser um bilhete qualquer, mas sim, um como aquele do Almodóvar. Espero que nunca me entenda, porque se compreenderes estarás tão desesperado quanto eu. Alguma coisa assim, não lembrava direito. E tinha aquela cena com vinil, Ne me quitte pas e uma frase qualquer bonita. Seus joelhos estavam ardendo. Desligou o chuveiro e saiu. Não tinha uma banheira.


LETICIA FONTANELLA

leticiafontanella.blogspot.com

sábado, 14 de novembro de 2009


película digitalizada
Apresentei dia desses a um camarada meu de Curitiba, algumas das famosas praias do Rio de Janeiro: Flamengo, Urca, Leblon e Arpoador, interessante, pois já me sentia pouco à vontade ou desacostumado com vários aspectos bem próprios dos litorâneos, inda mais dos cariocas e fluminenses, meus conterrâneos, as vezes cidadinos tão vaidosos de seu litoral, cuja fama e beleza é proporcional a desfiguração da cidade, mascarada para o mundo de Globo e Olimpíada. Contudo, aqui existem pedras e existem orlas, praias onde não fiz castelos de areia, mas, caminhei sobre os avatares do horizonte; a mais de seis anos não subo os mirantes que dão ornamento às encostas e quebra-mares, que, para mim sempre foi a parte mais fascinante de um litoral, assim como a marisia da noite; ironicamente nem mesmo os meus pés se equilibram naquelas pedras com a mesma flexibilidade de antes, me esqueci até o simples hábito de lavar o chinelo no mar e tirar a areia enquanto se anda descalço no calçadão, ex-carioca mesmo; revisitar um lugar, parece uma nova permissão, a distância nos veta a presença física, regressos, somos licenciados da distância, no entanto agora, apesar da licença, sinto-me embargado no estranho deslocamento da memória. Por fim, tivemos o brinde amargo do calor e o crepúsculo de um sol anátema;dizem os metereologistas que estamos sob um pico extraordinário de calor, provavelmente dirão o mesmo ano que vem.Ah o sol,causticamente desolador, implacável tal qual o amanhecer que te chama para o cotidiano e não para o mar, esse mesmo sol gerador do calor que de tão quente morrerá como o escorpião suicida quando cercado pelo fogo; sossegados, isso é para daqui a dez bilhões de anos, ele se transformará em carbono e tudo será uma senescente estrela anã branca.

Tullio Stefano.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009


Galo

Em cima do telhado apontando para o Norte,
está o galo sossegado.

Não liga para mim nem para a sorte.

Passa dia, passa ano,
e o galo ali parado
sempre tão altivo e forte.

Às vezes a vida se torna
vazia e solitária,
e o galo pensa na morte.

Ele que parecia tão decidido, ensandeceu.

Virou repentinamente para o Sul
Duvidando dos ventos.

Será que este galo
Está tão perdido quanto eu?

Deisi Perin

informes poeteias


sábado, 7 de novembro de 2009

Ensaio

guardei teu azul
nas vidrarias e na porcelana.
no cadinho, coloquei para secar.
teorias e ensaios.
teu azul coloriu de sonho
o que não havia para sonhar.
acordo mudo mútuo refratário.
no cadinho, coloquei para secar.
no laboratório de ensaios
as vidrarias quebradas
as cruzes retorcidas
tudo já foi usado.
em qual vidro restará
o que não foi apagado?
em qual estudo ressurgirá
do cadinho de porcelana trincado
o resto da tinta do teu olhar?

Angela Gomes

quinta-feira, 5 de novembro de 2009


quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Terra Deserta

NALDOVELHO

Terra deserta de sonhos
não se presta ao cultivo de gente,
e as coisas que ali acontecem
alimentam sentimentos estranhos.

Por lá não florescem gerânios,
samambaias desmaiadas padecem,
azaléias ressequidas não crescem,
e o que nos resta é semear desenganos.

Em terra deserta de sonhos,
o canto dos pássaros destoa,
as horas de tão lentas enjoam,
e o dia nunca amanhece.

Vidas desertas de sonhos
não se prestam ao cultivo de homens,
que por dias, meses e anos,
aprisionados às sombras não crescem.

Profana


A cor do amor é branca,
e o amor tem uma covinha do lado direito do rosto
e o amor me olha como alguém
que jamais vai tirar a minha calcinha
e gozar o céu dentro de mim.
O amor sempre vai me olhar
como se eu estivesse num altar de papel.
Para o amor, eu sou uma rima
e rima não tem vagina.
Para o amor, eu sou uma ode
com uma ode ninguém fode.
Eu sou um verso alexandrino
jamais tocado pelo herdeiro deste nome.
Eu sou a palavra, e a palavra, a palavra é Deus
Deus ninguém come, mas,
será que beber
pode?


BÁRBARA LIA

in: NOIR (edição independente - 2006)

segunda-feira, 2 de novembro de 2009


Você é o que consome ?

sábado, 31 de outubro de 2009

Letras Celestiais

caído do céu poema azul
ácido pássaro
abatido de gozo e riso
banido do paraíso
ferido em tombo preciso
letra de fado
ritmo de samba
soar colorido
feito blues
de branco tingido
que deus me prove
vai que o céu é mais ao sul
e deus me love
e deus me livre
de ser eu
a besta do após calipso
vai que eu sei
que viro a mesa
luso-afro-brasileira
de madeira nobre
expondo os restos coloniais
desta nação de hipócritas
mostrando o rastros
desta história corrompida
vai que sei
não estou só
e não é só meu esse nó
e esse bom gosto
na língua.


rodrigo mebs


visite: http://frutafarta.blogspot.com

quinta-feira, 29 de outubro de 2009


Humano

Agora,
não igual aos instantâneos
amarelecidos
que fixaram o já visto, sou.

Sagrado & obsceno
Obscuro & sereno, em Si.

Ricardo Pozzo

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Bubble

Aqui não tenho destino; enxergo, ainda faminta, um pequeno cristal rompendo a penumbra daquelas noites tão ensurdecedoras. Desses dias moídos, o corpo gritando inutilmente, - um alento - a pedra ou a faca vertendo o céu em um prazer único, aquele que nunca virá. Recortes de construções, reformas paleozóicas, grandes passos contorcendo o corpo e chegando à Europa, distante... Noites próximas: na minha reconstrução, o que virá? Ouço o silêncio dos flashes, pequenas ondas quebrando na areia e o distender do joelho esquerdo, enquanto o direito jaz. Juntando sempre pedacinhos de papel, pois a palavra é sem destino, tanto quanto isto aqui, e a mão que conduz, e o corpo derretendo a cada instante quando "não" e ainda se precisa estar. Uma expansão ressonante, enquanto a menina densa encolhe seu corpo e acomoda seus cabelos sobre o travesseiro, o sol chega batendo nas plantas, chacoalhando as asas, engolindo o canto dos pássaros, destruindo a percepção de anteontem e estremecendo as pálpebras. A mão branca feito papel e recheada por um labirinto febril e nervoso que pulsa: a íris ainda é multicolor.

Petit J

http://aospecadossilencio.blogspot.com/

Deus afia a espada no dorso do esquálido firmamento e abre um buraco vermelho no céu, primeiro caem as cabeças dos justos, depois cai Ícaro e suas asas são negras vertigens - o desassossego do anjo que grita como asno enquanto avista o buraco azul no centro da terra, onde as sombras agarram-se às frestas esperando a morte de suas consciências, entre a lava e o dilúvio nenhuma árvore erguida, os olhos dos homens arregalados ou fechados para sempre.

Camila Vardarac

http://vaga-lumens.blogspot.com/